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Segunda paciente com HIV pode ter se curado da infecção sem tratamento

Argentina de 30 anos Ă©, possivelmente, apenas o segundo caso conhecido no mundo.

Por Portal Celeiro em 16/11/2021 às 20:00:57
Foto: National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID)

Foto: National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID)

Uma argentina de 30 anos pode ser a segunda pessoa no mundo que se infectou e conseguiu se curar do vírus HIV sem a necessidade de tratamento, aponta uma pesquisa publicada nesta terça-feira (16) no "Annals of Internal Medicine".

Segundo o estudo – de pesquisadoras em Buenos Aires e em Boston, nos Estados Unidos –, a mulher vem mantendo uma carga viral indetectĂĄvel do HIV tipo 1 (HIV-1) hĂĄ 8 anos, mesmo sem terapia antirretroviral nem transplante de medula óssea.

Nesta reportagem, vocĂȘ vai entender:

  1. A questĂŁo em torno do "tipo de cura" alcançado pela paciente – e por que ela nunca poderĂĄ ser totalmente comprovada
  2. Os detalhes do caso (a paciente engravidou e deu à luz um bebĂȘ sem HIV)
  3. O mecanismo dos 'controladores de elite' para deter o vĂ­rus
  4. A diferença entre esse caso e outros dois que também foram curados do HIV – só que com um transplante de medula óssea
  5. Por que o HIV é tĂŁo difĂ­cil de curar

1. 'Tipo de cura'

Para chegar à conclusĂŁo de que a paciente havia, possivelmente, se curado do HIV, as cientistas examinaram 1,5 bilhĂŁo de células da paciente. Elas nĂŁo encontraram nem partĂ­culas do vĂ­rus que fossem capazes de se replicar nem provĂ­rus do HIV – o vĂ­rus com o material genético em DNA, que se integra ao DNA das nossas células.

Até agora, só um outro caso do tipo – em uma mulher de 67 anos – havia sido identificado pela ciĂȘncia (veja detalhes mais abaixo). As duas pacientes se tornaram conhecidas por serem o que se chama de "controladoras de elite" do vĂ­rus – pessoas capazes de obter uma "cura funcional" do vĂ­rus mesmo sem receber medicamentos (entenda melhor no tópico 3).

"A cura funcional é aquela em que vocĂȘ controla o vĂ­rus e nĂŁo tem mais nenhuma evidĂȘncia de que ele possa fazer algum mal à saĂșde. É aquela daquelas pessoas que a gente chama de controladores de elite – nĂŁo é uma coisa infrequente, acontece em 1% a 3% das pessoas", explica Ricardo Diaz, infectologista da Universidade Federal de SĂŁo Paulo (Unifesp) que, no ano passado, liderou um grupo de pesquisadores que conseguiram eliminar o HIV de um paciente com um novo coquetel de medicamentos.

Só que esses dois casos chamam atenção mesmo entre esses "controladores de elite". Isso porque essas pacientes foram capazes de controlar o vĂ­rus de maneira tĂŁo eficiente que nĂŁo hĂĄ mais nenhum sinal de que ele tenha capacidade de se multiplicar, explica Diaz.

Mas as próprias autoras do estudo alertam que, apesar de ser provĂĄvel que a paciente tenha obtido o que chamam de "cura esterilizante" do HIV, nĂŁo é possĂ­vel provar isso com absoluta certeza.

"No contexto da pesquisa do HIV-1, isso significa que serĂĄ impossĂ­vel provar empiricamente que alguém alcançou a cura esterilizante", dizem. "Tudo o que pode ser feito razoavelmente é mostrar que alguém nĂŁo estĂĄ curado, isolando provĂ­rus intactos e/ou HIV-1 competente para replicação", explicam na pesquisa.

Elas esclarecem que, "embora isso possa parecer insatisfatório, reflete uma limitação intrĂ­nseca da pesquisa cientĂ­fica: os conceitos cientĂ­ficos nunca podem ser provados por meio da coleta de dados empĂ­ricos; eles só podem ser refutados".

Nesse ponto, Diaz faz uma crĂ­tica: para ele, como as cientistas encontraram vestĂ­gios do HIV na paciente, nĂŁo é possĂ­vel dizer que o que ocorreu foi uma "cura esterilizante" (entenda melhor a diferença mais abaixo nesta reportagem).

As cientistas reconhecem que os "mecanismos que permitem um resultado tão notåvel da doença são difíceis" e que os resultados são extremamente raros, mas possíveis.

A autora sĂȘnior da pesquisa, Xu Yu, explicou em um comunicado à imprensa que as descobertas podem sugerir uma resposta especĂ­fica de células do sistema de defesa que abre possibilidade de que outras pessoas com HIV também tenham alcançado a cura sozinhas. Se esses mecanismos imunológicos puderem ser entendidos, a ciĂȘncia pode desenvolver tratamentos que ensinem o sistema imunológico de outras pessoas a imitar essas respostas em casos de infecção por HIV.

2. A paciente de Esperanza: detalhes do caso

O caso ocorreu na cidade de Esperanza, na Argentina, cerca de 500 km a noroeste de Buenos Aires. A mulher – que ficarĂĄ conhecida como a "paciente de Esperanza", como o "paciente de Berlim" e o "paciente de Londres" – teve o primeiro resultado positivo para o HIV em março de 2013.

Nos 8 anos seguintes em que foi acompanhada, os resultados de 10 testes comerciais apontaram carga viral abaixo do limite de detecção, ou seja, indetectĂĄvel. Também nĂŁo houve sinais clĂ­nicos ou laboratoriais de qualquer doença associada ao HIV-1.

Em 2019, a mulher engravidou e fez um tratamento com a terapia antirretroviral para evitar que o bebĂȘ se infectasse, até o parto, em 2020. A criança nasceu e permanece, até hoje, sem o vĂ­rus.

Mas por que começar o tratamento se a paciente era uma controladora de elite?

HĂĄ pelo menos dois motivos, segundo Ricardo Diaz: o primeiro é que nem todos os controladores de elite permanecem assim para sempre. O outro é que a própria gestação pode fazer com que a mulher perca essa capacidade de controlar o vĂ­rus.

"Nem todo controlador de elite é controlador de elite pra sempre. Em 8 anos, um terço deles perde o controle", esclarece o pesquisador.

"A gente nĂŁo sabe exatamente o que é que faz eles perderem o controle. Mas, seguramente, é alguma coisa que ao mesmo tempo estimula o vĂ­rus e modifica o teu sistema imune. EntĂŁo vocĂȘ vai ficar menos responsiva. Sabe uma coisa que estimula o vĂ­rus e modifica o teu sistema imune? Gestação. EntĂŁo, mesmo sendo controladora de elite, na gestação, a gente trata", explica.

Depois que deu à luz, a paciente parou de usar a terapia antirretroviral, mas continuou a controlar a doença naturalmente.

3. Como funciona o 'autocontrole' do HIV?

Mesmo com esse controle "de elite" foram encontrados vestígios de que a mulher um dia foi infectada com o vírus e chegou a ter ciclos ativos de replicação viral, segundo as pesquisadoras.

Elas chegaram a essa conclusĂŁo depois de encontrar 7 provĂ­rus (material genético em DNA) do HIV defeituosos. Um deles era hipermutado (com pedaços que o tornavam defeituoso e incapaz de se replicar) e quase completo, e os outros tinham muitos pedaços faltando (grandes deleçÔes).

Quando o HIV infecta o nosso corpo, ele entra no DNA de todas as nossas células. E, à medida que as células vĂŁo se reproduzindo, fazem o mesmo com o material do vĂ­rus – e o jogam para a corrente sanguĂ­nea.

O que acontece com os controladores de elite, explica Ricardo Diaz, é que o sistema imune mata as células antes que os vĂ­rus saiam dela. É uma estratégia chamada "shock and kill" – "chocar e matar", em tradução livre.

"O que acontece é que só vai sobrar vĂ­rus nessas pessoas onde vocĂȘ tem como se fosse um deserto – em que vocĂȘ nĂŁo consegue fazer com que o vĂ­rus se multiplique [para matar as células]", esclarece.

"Só sobra HIV onde tem cromatina repressora – como se fosse uma tumba para o vĂ­rus. E ele nĂŁo consegue sair. AĂ­ essa pessoa adquire essa cura – porque sobraram pedacinhos de vĂ­rus, ou [o vĂ­rus] estĂĄ naquele local que ele nĂŁo consegue sair, que é a cromatina repressora. Isso acontece muito raramente – e provavelmente aconteceu duas vezes, que a gente tenha detectado: essa moça da Argentina e na outra, de SĂŁo Francisco", explica.

4. Pacientes de Berlim e Londres

HĂĄ uma diferença entre os casos dessas duas pacientes, controladoras de elite, e de outros dois, que conseguiram a chamada "cura esterilizante" – mencionada no começo da reportagem – do HIV.

Tanto o "paciente de Berlim" (Tim Brown, que morreu no ano passado) e o outro, o "paciente de Londres", curado em 2019, passaram por um transplante de medula óssea.

(Segundo Diaz, um terceiro caso desse tipo deve ser anunciado em breve – o do "paciente de DĂŒsseldorf").

Ambos os homens receberam o transplante de medula de pessoas que tinham uma mutação de um gene (CCR5-delta 32) que as tornava naturalmente resistentes à infecção pelo HIV.

Com esse "reset" do sistema imune, foi apagado qualquer vestĂ­gio do vĂ­rus em seus corpos – até na cromatina repressora, a "tumba" do HIV, explica Ricardo Diaz. Nesse caso, segundo o pesquisador, pode se falar em "cura esterilizante" – que é a mencionada pelas cientistas na pesquisa argentina.

"A cura esterilizante é simplesmente porque o vĂ­rus sumiu e os anticorpos sumiram e a imunidade das células – a imunidade celular especĂ­fica – sumiu também. É quando ele [o paciente] se livra totalmente do vĂ­rus. NĂŁo é só o vestĂ­gio, mas a ausĂȘncia completa do vĂ­rus e qualquer sinal do corpo de que possa ter o vĂ­rus", esclarece Diaz.

Ao mesmo tempo em que explica que é por isso que a ciĂȘncia acredita que a cura dos pacientes transplantados é esterilizante – pela ausĂȘncia completa do vĂ­rus, diferente da paciente argentina – o especialista esclarece que esses termos sĂŁo desatualizados. O mais correto seria referir-se aos casos como "remissĂŁo sustentada do HIV sem antirretrovirais".

"NĂŁo dĂĄ pra garantir, mesmo que vocĂȘ tenha boas evidĂȘncias, de que uma cura esterilizante aconteceu de fato. VocĂȘ teria que seguir a pessoa a vida inteira – nĂŁo tem como tirar um raio-X do corpo da pessoa e falar 'nĂŁo existe nenhum vĂ­rus mais aqui'. VocĂȘ consegue amostrar de uma forma limitada – pega uma quantidade grande de sangue, faz biópsia – vocĂȘ nĂŁo enxerga o corpo todo da pessoa para ver se ela tem HIV", pondera.

5. Por que o HIV é tĂŁo difĂ­cil de curar?

Nas pessoas "comuns" – a vasta maioria que nĂŁo consegue controlar naturalmente o HIV – a intenção da terapia antirretroviral é "acordar" o vĂ­rus que estĂĄ latente – "dormindo" dentro das células – e eliminĂĄ-lo. É o mesmo "chocar e matar", só que com a ajuda de medicamentos.

É essa latĂȘncia que torna tĂŁo difĂ­cil eliminar o HIV.

"Tem uma quantidade de células – que é de 0.01% até 0.0001% – que tĂȘm vĂ­rus latente. O vĂ­rus latente vai acordando ao longo do tempo. Se vocĂȘ tratar as pessoas com coquetel, o vĂ­rus vai saindo da latĂȘncia e vocĂȘ vai diminuindo essa porcentagem de vĂ­rus latente. Igual a um balĂŁozinho, que vai murchando", explica Ricardo Diaz.

"AĂ­ vocĂȘ cura a pessoa – só que demora. 80 anos. Para curar uma pessoa, vocĂȘ teria que tratar de forma efetiva por 80 anos. Por isso que nĂŁo dĂĄ para interromper o tratamento – porque, na hora que vocĂȘ interrompe, aparece um vĂ­rus latente", esclarece.

Na pesquisa que liderou no ano passado, ele e sua equipe começaram uma empreitada que pretende diminuir esse tempo para 2 anos.

Fonte: Por Lara Pinheiro, g1

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